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03/09/2019 ás 18h10

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Ji-Paraná / RO

Entenda a crise na Argentina e como ela afeta o Brasil
A crise que assola o país praticamente enterra as chances de Macri ser reeleito, segundo analistas.
Entenda a crise na Argentina e como ela afeta o Brasil

O peso argentino se desvaloriza em relação ao dólar nesta terça-feira, 3, apesar das recentes medidas adotadas pelo governo de Mauricio Macri para proteger a moeda. O dólar é cotado a 58 pesos, acima do fechamento de segunda-feira, 2. Desde o fim de semana, o governo impôs limites para a compra da moeda americana - medida adotada pela antecessora, Cristina Kirchner, e amplamente criticada por Macri. Na semana passadaa, o governo já havia proibido bancos de distibuírem seus lucros anunciado que o pagamento da dívida de curto prazo ficará para o presidente que será eleito em outubro.


A crise que assola o país praticamente enterra as chances de Macri ser reeleito, segundo analistas. Em agosto, o presidente já havia tido sinais de que as chances de uma vitória em outubro eram baixas. Nas eleições primárias, a chapa de oposição, formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner, o derrotou por 15 pontos porcentuais de diferença. Foi um recado da população argentina de descontentamento com a economia do país, que está em seu segundo ano consecutivo de recessão e enfrenta uma inflação acumulada nos últimos 12 meses de 54%.


Entenda a mais recente crise do país.


O governo argentino está com um nível baixo de reservas internacionais. Por isso, na semana passada, o presidente Mauricio Macri teve de escolher entre usar as reservas para pagar a dívida ou para segurar a desvalorização do peso. Macri optou pela segunda opção e anunciou que apenas 15% da dívida argentina de curto prazo com investidores internacionais (como fundos, bancos e seguradoras) seria paga no vencimento. Do restante, 25% serão pagos daqui a três meses e 60%, daqui a seis meses. No último domingo, 1ºo governo anunciou outras medidas para tentar segurar a cotação da moeda argentina. A compra de dólar por pessoas física ficou limitada em US$ 10 mil. Para pessoas jurídicas, a compra está proibida para pagamentos de dividendos e de dívidas fora do vencimento. Exportadores também têm de retornar as divisas ao país até cinco dias após receberem. Com esse pacote, o governo pretende aumentar o volume de dólares no mercado doméstico, reduzindo o preço da moeda americana e, portanto, a desvalorização do peso.


São US$ 101 bilhões, incluindo US$ 57 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A dívida de curto prazo, que vence ainda neste ano, é de cerca de US$ 15 bilhões. A de longo prazo será negociada com os credores. Com o FMI, a Argentina também está tentando chegar a um acordo.


É um calote?


O governo afirma que a postergação do pagamento da dívida de curto prazo é um “reperfilamento” da dívida, pois promete pagar os juros e o capital total em nova data.A medida, porém, pode ser considerada uma moratória, dizem economistas, pois prazos acertados quando os títulos da União foram vendidos não estão sendo cumpridos. Também não houve negociação entre governo e detentores desses títulos para se fixar o novo prazo.


No fim da semana passada, eram US$ 55,5 bilhões - para comparação, o Brasil tinha US$ 387 bilhões na sexta-feira. O problema das reservas argentinas é que pouco menos de US$ 13 bilhões são líquidas e podem ser usadas pelo governo imediatamente. O restante é composto por ouro, yuans emprestados pela China para operações comerciais e depósitos em dólares feitos pela população em bancos e detidos pelo Banco Central na forma de compulsório. O volume de reservas também tem diminuído rapidamente: caiu 16% desde 9 de agosto.


Para o peso não desvalorizar ainda mais, o Banco Central da República Argentina (BCRA) vinha leiloando suas reservas. O problema é que, depois das eleições presidenciais primárias, em 11 de agosto, a necessidade de leilões cresceu rapidamente. Nessa data, a chapa de oposição formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner bateu a de Mauricio Macri nas primárias. Tidos como mais intervencionistas, Fernández e Cristina não são bem vistos no mercado financeiro, que teme um calote por parte da dupla - caso ela seja eleita em 27 de outubro. Assim, investidores têm fugido do peso e da dívida argentina. Antes das primárias, o governo vinha conseguindo rolar 90% da dívida de curto prazo. Na semana passada, esse número era de 5%.


Quando Macri assumiu o governo, em dezembro de 2016, o país precisava reduzir seu déficit fiscal. O presidente optou por fazer esse ajuste de forma gradual. Como os gastos do governo continuaram superiores à arrecadação - e a conta não fechava -, foi preciso emitir dívida. No começo do ano passado, com os Estados Unidos aumentando sua taxa básica de juros, muitos investidores deixaram países emergentes, pois tinham um retorno nos EUA elevado e mais seguro. Assim, houve uma fuga de capitais da Argentina e, consequentemente, desvalorização do peso. Macri recorreu ao FMI, que concedeu US$ 56 bilhões ao país. Foi o maior empréstimo da história do órgão, que, em contrapartida, pediu uma aceleração do ajuste fiscal. Desde então, os investidores têm olhado para a Argentina com desconfiança. Isso se agravou com a vitória kirchnerista nas primárias, pois as chances de o resultado se repetir nas eleições em outubro são grandes. Há, portanto, uma preocupação com a possibilidade de mudança de rota na política econômica, que pode se tornar mais avessa ao mercado financeiro.


No mercado financeiro, o real pode se desvalorizar e a Bolsa cair. Isso porque muitos investidores internacionais apostam em um conjunto de países, como América Latina. Assim, a fuga de capital da Argentina pode acabar se tornando uma fuga de capital de países da América Latina. As exportações brasileiras também devem diminuir, principalmente a de produtos industriais, como carros. Hoje, 5% das exportações brasileiras vão para a Argentina. Quando se considera apenas o setor industrial, esse número chega a 20%. Segundo economistas, uma queda nas exportações brasileiras poderia ser compensada pelo consumo interno se o Brasil estivesse em um período de rápido crescimento. Como esse não é o caso, a crise argentina deve ser mais relevante para o Brasil do que seria em outra época.


FONTE: Estadão

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