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12/09/2019 ás 14h35

Redação I

Ji-Paraná / RO

Biojoias produzidas por pacientes de hanseníase em RO serão vendidas na França
“Com o dinheiro da venda, as famílias pagam o gás de cozinha e o alimento, mas a perspectiva da cooperativa abra mais horizontes
Biojoias produzidas por pacientes de hanseníase em RO serão vendidas na França
Do ouriço da castanha saem diferentes formas de ornamentos confeccionados manualmente pelo grupo de autocuidado

A cerca de dez quilômetros do centro de Porto Velho, numa casa simples do bairro Planalto, um grupo de pessoas acometidas por hanseníase já despertar o interesse de clientela brasileira e estrangeira para a compra de biojoias.


 


Também conhecida por ecojoia, a confecção de brincos, colares e pulseiras a partir de sementes, garrafas com adornos de palha e outros objetos ganha espaço com apoio da Agência Estadual de Vigilância em Saúde (Agevisa), que ensina ao grupo modelos e métodos para esse trabalho.


 


O ânimo é tanto que eles já dispõem da própria logomarca: Art’s BioHans. No momento, a parceria entre a Agevisa e a NHR Brasil capacita essas pessoas a trabalhar com cocos babaçu, fibras de bananeira, buriti, tucum e sizal, ouriço de castanha e tucumã.


Encomendas de produtos dos artesãos rondonienses já podem ser feitas pelo Instagram.


 


A NBR Brasil é uma entidade sem fins lucrativos de Direito Privado com sede em Amsterdã, Holanda, cujo objetivo é permitir aos estados cuidar melhor de pacientes hansenianos. Suas parcerias no Brasil vêm desde 1990.


 


“Isto se traduz em trabalho e renda”, comenta o economista da Agevisa e assessor de gabinete Eliseu Lira. No atual período são quase 30 os artesãos de bombons e de biojoias. Brevemente eles estarão associados a uma cooperativa.


 



“As pessoas se sentem úteis e partícipes do mercado, não se sentindo apenas dependentes dos benefícios de políticas públicas”, assinala Lira.



 


Mencionando os 14 milhões de desempregados no País, Lira acredita que portadores de hanseníase “têm alguma vantagem para conquistar espaço no mercado de trabalho”, pois são cuidados por diversas instituições. “É nesse aspecto que eles podem realizar seus sonhos, já que os seus produtos contém a narrativa de resgate, de recuperação de doença estigmatizada, sobretudo de comunidade”.


 



 


O acabamento fino do produto lixado à mão, não comporta nem verniz. “Tudo é 100% natural, com design, corte, lapidação e marchetaria produzidos pelas mãos deles”, explica a artesã Cristiane Oliveira, coordenadora da oficina e pioneira no bairro.


 


“Outro dia, numa exposição no TRE, um visitante adquiriu dois colares; pessoas que não usam fios industrializados é que dão preferência ao produto sustentável”, diz.


 


Kennedy Meira, representante do economista e empresário Petterson Molina Vale, acompanha o trabalho atentamente.


 


Petterson, especializado na inter-relação entre políticas agrícolas e ambientais, encomendou 30 peças para escolha. Elas se multiplicarão depois para atender ao mercado francês.


 


Durante uma década, Petterson pesquisou artesanato em Universidades pelo mundo, e atualmente mapeia as tendências para uso de tecnologia de ponta. Ele próprio gosta de viajar a campo e não será surpresa se amanhã ou depois aparecer nesse bairro periférico de Porto Velho, “para aprender com as pessoas”, conforme ele próprio costuma dizer.


 


Em 2015, Petterson recebeu o Certificado de Pós-Graduação em Ensino Superior da London Schoolof Economics and Political Science, e também fui co-autor do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.


 


Pirogravuras em ouriços de castanha acrescentam detalhes às peças simetricamente prensadas. Trata-se da gravação feita em madeira ou metal com uma ponta metálica incandescente.


 


“Após a colheita do cacho de banana, já se pode retirar a fibra para obter esta bonita renda, e também a seda e o linho. Para modelar, usamos água”, diz Cristiane Oliveira.


 


DIVERSIDADE


 


Na concepção da oficina, a fabricação de embalagens inteira a cadeia de consciência ambiental. Desta maneira, saem caixinhas revestidas com fibra e saquinhos ecológicos de papel-madeira, produtos entregues aos armarinhos nas cidades.


 



“Com o dinheiro da venda, as famílias pagam o gás de cozinha e o alimento, mas a perspectiva da cooperativa abra mais horizontes”, informa Cristina.


 



Das peças mais recentes, a oficina ensina a fabricação da quenga de coco limpa e higienizada, que serve para guardar parafina, para uso alternativo à taça de sorvete, ou, simplesmente, porta objetos e pequeno vaso de plantas.


 



 


A próxima oficina trabalhará a textura dos produtos. Segundo ela, o grupo aprende com facilidade.


 


GARRAFAS RENDADAS


 


Fixando a renda na garrafa, Vera Lúcia Tossini Vilela, 59, mostra o balcão repleto de folhas de embaúba, com as quais completará o enfeite. “Nada de tinta, as pessoas apreciam o mais natural possível”, disse.


 


Percebeu isso com clientes da Bahia e do Rio de Janeiro. Uma amiga quis levar seus produtos à Nova Zelândia.


 


Essa valorização tem motivado Vera Lúcia a adiar a cirurgia no braço esquerdo. “Eu pedi: doutor: põe isso mais pra frente, porque eu tenho criação e asa pra voar”. 


 


FAMÍLIA ABRAÇA A CAUSA


 



 


Evanilda Ribeiro da Costa Moreno, 54 anos, associou-se ao marido Edno Carlos Moreno, 53, na linha C25, a oito quilômetros da cidade de Monte Negro, na região do Jamari, montando a própria estrutura de produção e venda de artesanato.  “Trabalhamos todos na garagem de casa, na chácara”, ela conta.


 


A família se envolveu no negócio com alegria: a filha Viviane, os netos Adson e Evelyn, e o genro Marcos Antônio. Todos naquela linha conhecida: “Enquanto um descansa, carrega pedra”. Nesse caso, eles carregam sementes, palhas e folhas.


 


Assentados inicialmente na linha 204, no distrito de Rondominas, protagonizam longa migração rumo a Rondônia.


 


“Eu mesmo saí de Bugre (MG) para Nova Cantu (PR), morei ainda em Curitiba, depois vim pra região de Ji-Paraná, Ariquemes, e mais tarde Monte Negro.


 DO BOMBOM AO ARTESANATO


 


Integrante do grupo de gastronomia, que vem crescendo a cada dia, Maria da Silva Lima, 67, amazonense de Lábrea e moradora no bairro Cohab Floresta, se sente feliz em participar agora de um novo aprendizado. Quer se tornar artesã, carregando como troféu o êxito de sua produção de bombons de cupuaçu, castanha e de coco que vende pontualmente nas Faculdades de Porto Velho, na Policlínica Oswaldo Cruz, e na Associação de Assistência Médica de Rondônia.


 


“Eu também faço pão de mandioca e suco verde”, anuncia.


 



Maria vende bombons, agora aprende a fazer biojoias


 


Todos ouvem o relato do seu cotidiano por ruas e bairros da Capital, onde embarca até em seis ônibus para percorrer diariamente os pontos de venda.


 


“Domingo eu entreguei 150 bombons e três potes de geleia de cupuaçu para um comprador de Londrina (PR); três semanas atrás, forneci duzentos bombons para um homem de São Paulo”, conta.


 


 DOENÇA TEM CURA 


 



  • Hanseníase é considerada a enfermidade mais antiga da humanidade, mas tem cura. Essa doença tropical negligenciada ainda representa um problema de saúde pública no Brasil. Infectocontagiosa, de evolução crônica, ela se manifesta principalmente por meio de lesões na pele e sintomas neurológicos, entre os quais, dormências e diminuição de força nas mãos e nos pés. É transmitida por um bacilo por meio do contato próximo e prolongado entre as pessoas.

  • Seu diagnóstico, tratamento e cura dependem de exames clínicos minuciosos e, principalmente, da capacitação do médico. No entanto, fica o alerta: quando descoberta e tratada tardiamente, a hanseníase pode trazer deformidades e incapacidades físicas.

  • Em 2018 ocorreram em Rondônia 691 novos casos de hanseníase; em 2017 foram 517. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) esses números estão acima da média por habitantes. De acordo com a Agevisa, uma doença sob controle tem em média até dez casos a cada 100 mil habitantes. Pelos dados de 2018, Rondônia teve mais de 38 casos a cada 100 mil habitantes, quase três vezes mais do que a OMS preconiza. Assim, o estado ocupa a 6° posição em casos de hanseníase no Brasil. Na frente estão Mato Grosso, Tocantins, Maranhão, Piauí e Pará.

FONTE: Montezuma Cruzuz

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